
A malvada da cachaça
Eu não sou 10, mas fiquei. Explico-me.
10 é mesmo um número curioso. Ele permeia a nossa vida de diversas maneiras. Acho que o meu primeiro contato com o número foi na escola. Talvez tenha sido na de samba - provavelmente a minha família já me submetia a assistir o angustiante show da apuração pela tevê mesmo antes que eu tivesse discernimento e tamanho suficientes para frequentar aulas. É provável, então, que o meu primeiro contato tenha sido ainda na terna infância, no colo da minha mãe. “Nota… 10!”, gritou a televisão. Eu, num susto, abri o berreiro e minha mãe repreendeu o meu avô: “abaixa esse volume, pai!” Até hoje é assim.
Do susto eu tenho poucas recordações, mas o trauma me persegue até hoje. Com o passar dos anos, você descobre que tem que tirar 10 no colégio, aprende os 10 mandamentos nas aulas de catecismo – onde, aliás, também ouve falar sobre as 10 pragas do Egito -, seu pai te conta que o Pelé vestia a camisa 10 do Santos, seu professor te ensina que 10 é o número atômico do Neon, um amigo (paulista) te diz que o primeiro álbum do Pearl Jam é 10 (além de se chamar ‘Ten’), você se consagra um fracasso por não conseguir derrubar nenhum dos 10 pinos no boliche, você vê o Roberto Baggio na camisa 10 italiana perder o pênalti e o Brasil ser tetra… Tudo é 10, até Deus é 10. Ok. Só o Romário é 11.
E agora eu sou 10. Quando descobri isso, o susto foi maior do que aquele que originou o trauma. Eu achei que não fosse possível, que fosse alguma pegadinha, alguém querendo me pregar uma peça. “Sério, gente, para com isso! Não tem graça nenhuma!” Não tem mesmo. Nunca pensei que esse dia fosse chegar, mas – voilà – parece até que ele já estava aqui há um tempo e eu continuei virando as folhinhas do calendário inadvertidamente… Não sou 10, mas fiquei. Fiquei 10 quilos acima do meu peso ideal.
Já era de se imaginar. Eu fingia que não via que só conseguia vestir um quinto das roupas no meu armário, que até os casacos tinham ficado mais justos, que as saias sassaricavam pra cima dos quadris toda vez que eu andava. Foi a balança, a mais temida ferramenta de tortura para qualquer mulher, que se revelou a minha melhor amiga. Afinal, quem avisa amigo é, não é mesmo? E eu quase escutei um “ai!” quando descalcei os sapatos e subi em cima dela. O moço que faz avaliação física na academia – e é detentor de todas as demais ferramentas de tortura que servem para medir o quanto de gordura você tem no corpo e a falta de vergonha que você tem na cara, numa equação inversamente proporcional - torceu a boca para a esquerda e anotou na ficha sem fazer nenhum comentário. O silêncio dele me ensurdece até agora.
Diante de uma constatação tão ferrenha quanto essa, é claro que a gente vai em busca de culpados. “Morando sozinha em outra cidade, tudo fica mais difícil, a gente não se alimenta tão bem, né?”, “já viu a quantidade de happy hour que esse pessoal arruma?”, “a vida social é regada à cerveja, não tem jeito”, “eu moro do lado do Mc Donald’s, não tenho o que fazer”… É claro que é muito mais fácil encontrar um grande vilão – ou pequenos violõezinhos igualmente malvados – para a rotundice que abarca o meu ser neste momento. Eu cheguei até a pensar que o banco programava os coffee breaks com o mesmo intuito que a bruxa de João e Maria e que, tão logo estivéssemos gordinhos, seríamos devorados todos numa orgia antropofágico-financeira. Mas não.
E se isso for verdade, eu serei a primeira da fila.
Abraços,
a Musa de Botero
*Há quem diga que eu devia ter começado a dieta ontem. Mas todas as dietas que eu comecei numa segunda-feira terminaram invariavelmente na segunda à tarde.