Mariana nasceu contrariada.
A história não confirma o fato, mas também prescinde de apuração. Sempre carregou consigo um ar levemente rabugento, como quem vive um pouco a contragosto, com uma preguiça tamanha de muitas coisas e de muita gente. Era como se sempre estivesse andando apressada, à frente da própria idade, tentando acelerar o tempo, fazê-lo passar mais rápido para além dessas coisas que nos enchem de preguiça.
Desde pequena, não era afeita a novas amizades. Sofria – e como – todas as vezes que precisava estar entre desconhecidos. Era daquelas crianças que a mãe precisa pegar pela mão e levar pra fazer amigos, contar qual era seu nome, quantos anos tinha, a escolinha em que estudava. A mãe fazia o meio-de-campo, enquanto ela fitava o chão, cabisbaixa e silenciosa. Por ela, ficaria quietinha, escondida entre os adultos. Mas a mãe a repreendia e a obrigava a ir brincar.
Apesar de gostar de se imaginar narradora de sua vida – o que, por definição, é um exercício absolutamente patético-, em sua própria [patética] terceira pessoa, Mariana não chegou a experimentar no plano social todo o fracasso que o destino lhe havia reservado. Como se tivesse recebido uma colher-de-chá da própria sorte, fez bons amigos e fez questão de carregá-los consigo por muito tempo – muitas vezes por amor, outras tantas por horror. Horror ao esforço que precisaria enfrentar para repor o amigo perdido. Ambos sentimentos muito nobres, ela julgava.
E a vida, que é dona de si e não pede licença, reservou a Mariana alguns surpreendentes encontros de almas – aqueles momentos em que um desconhecido (ou quase) se revela alguém que o coração pede pra amar, pra cuidar, sem ter motivo aparente ou razão.
Algumas poucas vezes nos últimos 25 anos, em dia sempre despretensioso e de maneira desavisada, ela havia topado com alguém que nunca havia visto antes e experimentado esse momento quase mágico de se sentir tão ligada à pessoa que ela sentia vontade de pedir encarecidamente ao dia umas horinhas a mais pra conversa não ter que acabar. Sentia vontade de desacelerar – o tempo, a idade e todo resto que insiste em passar – pra arrastar o prazer de estar na companhia tão confortável e acolhedora de quem nem se sabia existir.
Mariana tinha certeza de que, na sua história [narrada pateticamente na terceira pessoa], a vida não havia lhe dado a oportunidade de conhecer essas pessoas, mas de reencontrá-las.
Há quem diga que a vida é a arte do encontro. Mas o que fascina mesmo Mariana são os reencontros pela vida.